Ter me tornado embaixadora da MRV em um projeto super bacana como esse me deixa muito feliz, pois está incentivando todas as mulheres a construirem o seu sonho através do esporte.
Silvana Lima

Nascida em Paracuru (CE) em 29 de outubro de 1984, passou a infância morando em uma barraca de praia, que é uma espécie de cabana que tem bastante no Nordeste, com a mãe e quatro irmãos. Ninguém tinha quarto e nem mesmo cama, dormiam todos em redes.

Seu pai e mãe se separaram quando ela ainda era pequena. Ela ajudava a mãe a vender PF [prato feito], cerveja, refrigerante e outras coisas para dar o dinheiro da sobrevivência.

Nessa época, o que ela gostava mesmo de fazer nos finais de semana e feriados era pastorear carros. Chegavam os turistas e ela falava: "Posso dar uma olhadinha, moço?" Paracuru é muito tranquila, não tem assalto nem nada, mas era uma maneira de ganhar a moedinha que depois ela ia usar para comer alguma coisa na escola.

Duas vezes vice-campeã mundial de surfe, voltou ao circuito em 2017, após temporada na divisão de acesso. Após participar da luta pela equiparação de premiações entre homens e mulheres no Circuito Mundial, ela acredita que suas vitórias podem ajudar a desenvolver o surfe feminino no Brasil.

Início

Começou a surfar por influência dos seus irmãos. Começou como brincadeira. Silvana é a caçula da família, eles já surfavam e ela começou a achar interessante, até porque não tinha mais nada para fazer na beira da praia.

Pegou as primeiras ondas com um pedaço qualquer de madeira, que era como se fosse o que a galera chama de "sonrisal" [skimboard, uma prancha pequena e arredondada], mas de madeira maciça mesmo, sem resina, rústica.

Saiu de casa em 2002, quando tinha 17 anos, para tentar a carreira como surfista.

Logo no primeiro ano, foi para São Paulo para disputar duas etapas que davam como prêmio um carro modelo Celta. Foi com a venda desse carro que ela conseguiu tirar a mãe da barraca e colocá-la em uma casa de verdade.

Trajetória Profissional

Silvana bateu na trave para conquistar o título mundial. Em 2008 e 2009, a cearense foi vice-campeã. Hoje, Silvana ainda compete no WCT e é a atleta brasileira que ficou por mais tempo no circuito, contabilizando dez temporadas até hoje.

Ela marcou a história do surfe feminino por seu estilo agressivo e determinado mas nunca desistiu do sonho de competir na elite. A cearense foi oito vezes campeã brasileira e também é a maior campeã de etapas do WCT, com quatro troféus.

Maior nome do surfe brasileiro, e única brasileira a participar do aclamado Brazilian Storm, os “bam-bam-bam” do esporte como Gabriel Medina e Felipe Toledo, ela passou muito tempo denunciando atitudes machistas entre os próprios companheiros, além da falta de patrocínio por não se enquadrar no padrão surfista/modelo. Hoje, minimiza o discurso para evitar polêmica.

“Mas nunca desisti de surfar nem de competir. Sinto que está todo mundo ajudando o surfe feminino e só vai melhorar daqui para frente.”

Obstáculo

No início, a maior dificuldade foi a falta de patrocínio. Mesmo já disputando competições profissionais, Silvana se inscrevia em campeonatos amadores para conseguir mais dinheiro. Começou a ganhar e foi avançando na carreira ao investir as premiações nela mesma.

Sua família é pequena e não tem condições financeiras, então ela é a coluna.

Existem campeonatos fora do Brasil, mas sem um patrocinador que ajude a viajar é a mesma coisa que nada.

“O surfe feminino no Brasil está apagado. Às vezes, fico sentida de falarem da "Brazilian Storm" e esquecerem do meu nome, já que eu também faço parte. Entrei no circuito junto do Adriano [Mineirinho] e todos eles me conheciam quando surgiram.”

Volta por cima

Algumas meninas fazem trabalhos de modelo. Não é a praia de Silvana. Ela é uma profissional de surfe, treina todos os dias, foco nos eventos e tem como objetivo competir.

Agora ela está bem em termos de patrocínio, tem marcas que a ajudam bastante.

No passado, o Circuito Mundial de Surfe tinha uma diferença absurda entre as premiações de homens e mulheres. Era algo como quatro vezes mais para os homens.

Hoje, eles equilibraram [desde 2014, a Liga Mundial de Surfe paga em média valores iguais para homens e mulheres], e muita gente brigou por isso, inclusive Silvana.

“Existe muito machismo no esporte, infelizmente. Não só no surfe. Já está à vista, todos sabem que existe. Uma coisa importante que acredito ter feito para mostrar a força do surfe feminino brasileiro foi quando dei um aéreo. E foi noticiado no Jornal Nacional pelo William Bonner.”

Rumo ao ouro olímpico

“Tenho dois grandes desejos no surfe: ser campeã mundial e participar da Olimpíada de Tóquio. Estou trabalhando para isso. Tenho muita fé e não desisti de levar o Mundial [ela foi vice em 2008 e 2009]. Temos algum tempo até os Jogos e estarei lá. Se eu ganhar, o surfe feminino pode ter a mudança que precisa.”

O Brasil terá duas mulheres no surfe feminino nos próximos Jogos Olímpicos. Silvana Lima conquistou a vaga para Tóquio 2020 ao chegar nas oitavas-de-final da etapa de Maui, no Havaí, do Circuito Mundial de surfe.

Para ficar com a oitava e última vaga nos Jogos, Silvana superou a neozelandesa Paige Hareb no ranking. Ambas avançaram para as oitavas-de-final, mas logo na primeira bateria Hareb foi eliminada pela australiana Sally Fitzgibbons, selando a vaga de Silvana, que foi eliminada na mesma fase pela também australiana Stephanie Gilmore, que ficou com o título da etapa.

“Nunca imaginei que um dia eu iria representar meu país (nos Jogos Olímpicos). Depois de tanta luta, hoje estou aqui, graças a Deus, pra dizer que meu grande sonho acaba de ser realizado! Estarei nas Olimpíadas de 2020.”